Uma das críticas mais comuns (e rasas) ao conhecimento contábil é de que ele “não é teórico”.
Os próprios contadores, muitas vezes, tendem a enxergar a contabilidade apenas como um conhecimento ferramental (que por si só já é incrível, vamos combinar!).
Entretanto, a contabilidade vai muito além do tecnicismo dado que essa técnica REFLETE a teoria.
Sendo uma ciência SOCIAL, a contabilidade anda de mãos dadas com o desenvolvimento da sociedade – evolução do ser humano, do ambiente em que ele vive e de suas necessidades. Não é possível dissociar uma coisa da outra!
Note essa beleza: nossa ciência é alimentada e alimenta a filosofia de registro, apresentação e divulgação dos eventos econômicos, sendo embasada por teorias que fundamentam a sua prática!
Neste artigo trazemos insights super interessantes sobre teoria e prática contábil, longe de esgotar o tema.
Ao final, deixe o seu comentário para sabermos o que você achou!
Contabilidade: arte, ciência ou técnica?
O livro “Teoria da Contabilidade Financeira: Fundamentos e Aplicações”, organizado pelos professores Eduardo Flores, Guillermo Braunbeck e Nelson Carvalho, todos da FEA/USP, é um verdadeiro must have nesse assunto.
Em seu primeiro capítulo há a seguinte discussão: “Contabilidade: arte, ciência ou técnica?”. Os autores parafraseiam, de forma muito acertada, Iudícibus, Martins e Carvalho (2005, p. 11) e aqui replicamos:
“À medida que foram aparecendo, como consequência da evolução dos tempos e das organizações, e outros players, a Contabilidade foi se transformando, aos poucos, de um engenhoso sistema de escrituração e demonstrações contábeis simplificadas, num complexo sistema de informação e avaliação, com características científicas, institucionais e sociais de grande relevo e tendo, como objetivo central, suprir a necessidade informacional de seus usuários internos e externos à entidade a que se refere”. (p. 4) (grifo nosso)
Para entender os reflexos dessa necessidade informacional para os diferentes usuários da informação contábil, eles então descrevem e explicam a premissa da assimetria informacional – ou seja, a existência de informação IMPERFEITA nos mercados.
Descrevemos na sequência um exemplo simples, com nossas palavras, para explicar o que seria a premissa da assimetria informacional dentro do contexto da contabilidade financeira:
Considere o conhecimento informacional de um usuário interno de uma empresa (um gestor) e o de um usuário externo (um investidor) dessa mesma empresa. Quem você acredita que detém mais e melhor conhecimento informacional sobre diversos aspectos econômico-financeiros dessa entidade, o gestor ou o investidor?
Certamente o gestor!
Nesse exemplo, o gestor está em ~vantagem informacional~ quando comparado ao investidor, visto que ele tem posse de informações privilegiadas, estratégicas, detalhes operacionais e de resultados financeiros, dentre outras (e lembre-se que nem todas essas informações necessariamente serão públicas em algum momento).
As demonstrações financeiras, portanto, são um MECANISMO pelo qual a assimetria informacional (teórica e prática!) entre esses usuários é minimizada, pois a empresa presta contas periodicamente de seus resultados, desempenho, projeções, dentre outras informações relevantes para fins de tomada de decisão de seus usuários!
Esse racional tem fundamento na Teoria da Agência, explicada em mais detalhes a seguir.
Teoria da Agência
A teoria da agência (Jensen & Meckling, 1976) tem aplicação fundamental para o sistema de informação contábil.
Segundo os autores, o problema do agenciamento surge quando existe um contrato no qual o principal contrata outra pessoa ~neste caso, o agente~ para realizar um serviço com delegação de autoridade do principal para o agente.
Considerando que ambas as partes são ~maximizadoras de utilidade~, os autores sugerem que “o agente nem sempre agirá no melhor interesse do principal“.
A aplicação mais intuitiva desta teoria é a relação entre o gestor e o dono (ou acionista) de uma entidade, na qual surge a preocupação se a tomada de decisão do gestor coopera para a maximização da riqueza do acionista.
Como essa problemática é vista na prática? Programas de bônus, por exemplo, podem ser uma faca de dois gumes: à medida que incentiva o gestor a buscar bons resultados, abre espaço para o famoso earnings management!
Determinadas regras e princípios nas normas de contabilidade financeira podem “facilitar” esse tipo de comportamento pelos gestores, que buscam maximizar a sua própria função de utilidade no curto prazo, podendo fazer isso em detrimento das companhias gerenciadas.
Parece algo real para você? (a pergunta é bem retórica…)
No geral, para cada relação (gestor e credores, gestor e governo, gestor e clientes, etc.) é possível determinar qual o conflito e o consequente custo de agência deste conflito.
Um custo de agência NÍTIDO E PRÁTICO na área contábil são as ~despesas de monitoramento~, tais como a contratação de um auditor externo para executar trabalhos de asseguração da informação contábil produzida pelas companhias.
O auditor externo, à luz da teoria da agência, é um intermediador informacional. Na literatura também conhecido como gatekeeper, pois sua função é a de “proteger” os usuários externos de possíveis ações dos usuários internos que estejam em desacordo com os seus interesses!
Super interessante entender essa relação, não é?!
Para quem deseja se aprofundar no tema com uma abordagem de alto nível sobre teoria contábil, indicamos a leitura do livro “Positive Accounting Theory”, do Ross and Zimmerman (1986) – uma preciosidade!
Em outro momento podemos trazer reflexões baseadas nesta obra.
Referências:
Flores, E., Braunbeck, G., & Carvalho, N. (2018). Teoria da Contabilidade Financeira: Fundamentos e Aplicações. Atlas.
Jensen, M. C., & Meckling, W. H. (1976). Theory of the firm: Managerial behavior, agency costs and ownership structure. Journal of Financial Economics, 305-360.


